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29/03/11

Bocados dos dias

No final de Março:
- A mais pequena passa os dias (e uma noite) a certificar-se de que eu estou cá. O maior passa os dias alternando entre ser compincha (meu ou da mana) ou chagar quem estiver mais próximo;
- Não sei o que vestir, por isso, hoje fui finalmente às compras e arrecadei montes de coisas giras (umas calças, quatro t-shirts, um casaco de malha - vais dizer que parece a rede de pesca, mas não faz mal - e dois vestidos, um deles de festa, e imensas collants coloridas);
- Já tinha partilhado que sou naba das sopas, mas ontem, pela primeira vez na vida, os meus filhos disseram que gostaram "muito" da minha sopa (estavam surpreendidos, coitadinhos. Eu também). Pela primeira vez na vida, sabia à sopa da minha avó;
- Em casa de uns amigos, que nos acolheram no Domingo, encontrei esta relíquia (tristemente já não funciona). E fiquei com a sensação que era maior quando nós éramos mais pequenos, uma sensação igual à que tive quando fui visitar a minha sala da primária já no liceu (mini-cadeiras, mini-secretárias, mini-cacifos...);
- O que nos leva àquela música deprimente, de que eu gosto muito (o que eu chorei no último "Conta-me como foi", a ver os tropas todos a embarcar para o Ultramar e a pensar nos miúdos que foram queimar a juventude numa guerra completamente idiota, nas suas famílias que ficaram por cá a sofrer de saudades e medo)
"Vem viver a vida amor,
que o tempo que passou
não volta mais".
- É tudo, por hoje. Vai escrevendo.

21/01/11

Como é que é?

Como é que vamos recordar as coisas que etiquetamos "inesquecíveis" hoje daqui a muitos anos?
Os sorrisos de máxima felicidade dos miúdos, os dias em que reparamos que cresceram imenso durante a noite, os bons momentos, as conversas boas de ter, o tamanho das mãozinhas deles, as típicas mãozinhas peganhentas...
Agora são coisas que valorizamos. E daqui a uns anos?
Quando era miúda pensava nas coisas de que queria lembrar-me. E, raios, não é que não me lembro de uma única dessas coisas "fundamentais"?
Bom fim-de-semana

15/04/10

Conversar

Ando encantada com o aroma e sabor da pimenta longa que trouxe da Hédiard de Paris. Paguei relutantemente nove euros na loja luxuosa (era das coisas mais baratas) por um frasquinho de vidro recheado com os grãos de pimenta longa, que não são propriamente grãos, porque parecem uns tronquinhos secos e ásperos e que se devem raspar (a embalagem traz um raspador). Sabe deliciosamente em sopas, pratos de peixe ou carne, em sobremesas com chocolate e até mesmo só para cheirar. Tem aroma de limão e é ligeiramente mais suave do que a pimenta preta. A sua origem é Indonésia.


A rapariga que trabalha cá em casa ficou maravilhada e feliz quando lhe mostrei a pimenta porque a sua mãe costumava trabalhar numa fábrica em São Tomé onde esta pimenta era tratada. Sei bem o que ela sente. Também os cheiros mágicos da infância me fazem sonhar.
Onde se verifica o encantamento cósmico que o mundo tem. Pimentas indonésias vindas por acaso de Paris para Lisboa reavivam a mãe morta na memória da filha sãotomense. A vida é linda.

04/03/10

Mais net e o flash de um amigo

Cada vez mais me convenço que devia ter um teclado ligado à net em dois sítios muito específicos: ao lado da cama e no carro. E nem precisava do ecrã. Ontem à noite tive de lutar com todas as forças para resistir às ideias malucas que andavam a perseguir-me. Gritavam-me do mais profundo "vai escrever", "vai escrever já", "o que é que estás a fazer na cama?", "vai escrever", "não tentes resistir"...
Fechei os olhos com toda a força para ver se conseguia dormir. Acho que as minhas pestanas deviam parecer as do Keanu Reeves no Matrix, quando estava a absorver toda a informação necessária para praticar na perfeição artes marciais (gosto especialmente da maneira como dizem jujitsu).
A agitação para vir escrever foi cansativa e só passou quando voltei a acender a luz, teimosamente não para escrever mas sim para ler. Para pegar finalmente no Paulo Castilho que andava a reservar para mais tarde, para que não acabe tão depressa.

Porque o Paulo Castilho é uma espécie de febre - ou, pelo menos, sempre foi. Os seus livros têm de ser devorados e, pelo que consegui ler ontem, uma série de capítulos de enfiada, agora a lutar com o cansaço do corpo pelas horas tardias, parece-me que este vai manter as expectativas. A história começa em Sintra numa atmosfera que eu adoro, de casas antigas, com mobílias antigas, com pessoas antigas, que gosto de ler nos livros porque os posso imaginar sempre como a casa dos meus avós.
E começa com amigos que já eram amigos na altura dos 17 anos, em que se discute a existência e a não existência, a importância e o sentido da vida e outros conceitos filosóficos que só eles davam para um blog inteirinho. Que saudades de tertúlias assim. Estou em pulgas para que chegue a noite e para voltar a pegar no livro. O regime é auto-imposto, se começo a ler a qualquer hora o livro chega ao fim num instante.

Já hoje, de regresso a casa no carro, lembrei-me de repente dum amigo de infância que morreu há uma série de anos, pouco depois do meu irmão ter morrido. Lembrei-me da exacta circunstância em que soube que ele o tinha feito. Tinha acabado de acordar e estava deitada na cama verde de ferro, encostada à parede. A minha irmã entrou e deu-me a notícia com um ar desesperado. Disse-me que uma das últimas respostas que tinha dado a alguém era "agora já está tudo bem". Era um miúdo muito divertido, cheio de imaginação e vontade e habilidade para fazer disparates. Brincávamos muito todos juntos. Não teve uma vida muito fácil. E hoje tive saudades dele.

23/02/10

ih ih ih

Apercebi-me hoje, quando fui buscar os meus filhos à escola, que as auxiliares tratam o mais velho pelo último nome, assim como na tropa. Achei ternurento. Até porque eu trabalhei num sítio onde também me tratavam mais ou menos pelo último nome, assim como na tropa. E tive um momento de nostalgia.
A cabeça é um lugar estranho.

10/12/09

A propósito do Natal

Não sei muito bem como está a correr a minha compra de prendas para o Natal. Estou a fazer as compras sozinha, o que é mais difícil, porque há uma pessoa cá em casa que de há uns tempos para cá prefere fingir que em Dezembro não há Natal,
"- a mamã é que decora a árvore, porque a mamã é que gosta do Natal..."
nem há os seus anos,
"- não me faças nenhuma festa de anos. Nem se for surpresa."
nem há nada.
"- cá por mim nem celebrava o Natal..."

Nem sei bem o que lhe hei-de fazer, este é o segundo ano em que isto acontece, o ano passado tinha a desculpa da crise, o que é verdade é que o Natal por causa disso foi farçola. Este ano não sei.

Assim, ando a percorrer os corredores das lojas de brinquedos inspeccionando milimetricamente os brinquedos todos - e não encontro muitos que me apaixonem. Só uma casa de bonecas ou duas. Roupas de bonecas, carros telecomandados, estojos de maquilhagem, caixas de pintura... E Playmobil, claro, outra vez.

Quando era miúda, enchia o chão todo do quarto dos meus irmãos com a cidade Playmobil, com peças essencialmente herdadas do Jorge-das-mãos-moles-do-prédio-ao-lado. Eu e o meu irmão mais novo ficávamos horas a brincar com os bonecos e, muitas vezes, deixávamos tudo montado para o dia a seguir, rezando para que ninguém tivesse de ir à casa de banho a meio da noite. Devido ao Jorge, porque de outra maneira não teríamos mais do que dois ou três bonecos, tivemos uma cidade à séria da Playmobil, com polícia, bombeiros e ambulâncias, hospital, cães, cavalos e sei lá mais o quê, que deslumbrava toda a gente. Especialmente a nós os dois.

Também me lembro do Natal mágico em que a minha avó que nunca conheci me ofereceu uns brincos lindos. De ouro. Fiquei deliciada e acho que cresci uns centímetros.

E da música "Pró Natal, de presente, eu quero que seja... A minha agenda, a minha agenda...". E do Coro de Santo Amaro de Oeiras. E dos sonhos. E das filhós da minha avó Irene, que fazíamos numa tigela de faiança branca linda e pesada. E das rezas necessárias para fazer crescer a massa e de a embrulhar num cobertor de papa. O mistério dos fungos...

E ainda nem cheguei às prendas dos mais velhos - estou firmemente convicta que vou fazer a maior parte das prendas, mas para os homens não é prático, nenhum que eu conheça usa brincos...

Era tudo mais simples quando as prendas eram mesmo mágicas e era mesmo o menino Jesus que as deixava de manhã debaixo do pinheiro artificial decorado com todas as cores possíveis e ao lado do presépio maior do mundo, com lagos e patos e moinhos e soldados...

25/05/09

Imagens sugestivas

Há imagens, vistas ou imaginadas, que perduram na memória, surgindo ocasionalmente quando menos se espera. Tenho muitas boas imagens para puxar quando me apetece. As cores brilhantes do Verão em Abrantes, o cheiro da praia e a sensação aquática de estar mergulhada (que repetia durante o Inverno na banheira mergulhando a cabeça dentro de água durante forever, o que o meu filho mais velho também faz, ficando eu entre o enternecido a olhar para ele, sortudo que ainda cabe na banheira e o medo silencioso de pensar que já está sem respirar há muito tempo). Posso lembrar-me facilmente de fazer empadas com a minha avó ou de medir os centímetros todos da casa enorme dos meus avós que não conheci, procurando vestígios deles. Posso lembrar-me facilmente dos dias em que faltava à escola por ronha ou por estar doente e tinha direito a ficar em casa dos meus avós e do livro tristíssimo que o meu avô escritor traduziu do francês só para me poder ler e de ficarmos os dois tristonhos mas compinchas. Posso lembrar-me de comer comacompão com papos-secos ou de comê-los com açúcar e manteiga, ou de mergulhar o pão no leite, simplesmente para não ter de o beber.
Também me lembro dos meus pais novinhos e lindos, dos passeios fantásticos às retrosarias todas da Baixa em busca de botões com formas para calções ou vestidos novos. E de ver o meu filho e depois a minha filha pela primeira vez, será que vou ser capaz de fazer tudo bem? Não faço ideia...
Depois de voltar de Nova Iorque, onde simplesmente a-d-o-r-e-i ir, sempre que pegava na escova de dentes tinha flashbacks da viagem. Mas era só ao fim do dia, em casa. Quando lavava os dentes a seguir ao almoço no jornal não tinha a mesma sensação. Quando lavava os dentes de manhã antes de sair a correr para o trabalho nem pensar em pensar.
E depois há imagens más, que também se colam a nós e que era bom podermos esquecer. A última imagem má que tive foi a de uma cobra enroladinha no congelador de um tipo qualquer. É medonho, não consigo esquecer-me dela. A foto faz parte de um trabalho que adorava fazer, uma série de fotografias de frigoríficos e vale a pena ver a série toda. Já disse que sou curiosa das vidas das outras pessoas. Os frigoríficos podem ser super pessoais.