26/11/08
Olhe que eu sou cardíaco
O "olhe que eu sou cardíaco" apareceu, repetido várias vezes, quando eu ía a sair do carro, estacionado clandestinamente para não ter de pôr moedas no parquímetro. O motivo do susto era um labrador branquinho, daqueles adoráveis e amorosos, que não fazem mal a uma mosca porque, penso eu, têm todo o mimo do mundo. Tenho uma amiga que teve um. São uns cães lindos.
Mas, no escuro do jardim, o senhor assustou-se. Eu pensei que ele pensou que o cão era meu, porque o primeiro aviso da condição cardíaca foi feito na minha direcção. Assim, dirigi-me rapidamente para o cão, que tentei chamar sem lhe saber o nome e a quem dei umas festinhas. O senhor ía andando e eu, para tentar acalmá-lo e uma vez que a legítima dona do cão já se tinha aproximado dele, fui também caminhando lado a lado com o senhor.
Fui-lhe dizendo as coisas que aprendi no curso de socorrismo, respire fundo, acalme-se, o cão não faz mal nenhum, estou aqui e protejo-o (aliás, acho que isto é o que eu digo ao meu filho quando ele vê um cão a aproximar-se dele). E o senhor lá acalmou. E, eu e o meu novo amigo, fomos andando ao lado do jardim.
Então ele justificou-se. "Sabe, é que já tenho muita idade e, ainda por cima, sou cardíaco". E disse-me quantos anos tinha. É da idade do meu pai, penso eu. Mas agora que estamos à luz, tem razão, o senhor é muito velho. O meu pai tem, pelo menos, menos dez ou 15 anos que o senhor. Tenha uma boa vida então e obrigado, diz-me ele. Ficámos amigos. Nunca mais o vou ver.
Nuvens e flores
Gostei de ler
"Irrita pouco viu...
- Pessoas na calçada, sentido oposto ao meu, não sabem desviar e fica aquela dancinha boba irritante.
- Caneta com tinta seca.
- Clips estilo “correntinha” (tem sempre um morfético que junta tudo e na hora da correria é uó)
- Açúcar empedrado (adoro essa palavra)
- Quando o shampoo acaba e só tem outro novo do lado de fora do banheiro.
- bolinhas nas unhas após pintá-las
- Telefone ocupado
- Ligação perdida e celular sem crédito.
- Fila fake na balada
- Banco “suado” no metrô.
- PC lento.
- Guarda-chuva cretino que após um vento, vira e te deixa na mão.
- Meias molhadas.
- TV aberta aos domingos.
- Papel de bala vagabundo que não desgruda fácil dela.
- Baratas do verão.
- Chinelo de ponta cabeça.
- Números restritos “este número não pode ser chamado”
- Cantada feita por um sujeito no carro e você a pé: logo, não é possível ouvir a linda frase completa.
- Telefone fixo com fio curto
- Fone de ouvido bagaceiro que logo na primeira semana só um lado funciona.
- Sacola furada
- Ajuda do Windows (palavrinhas banais: você escreve “quiz” e ele, sem a tua permissão muda para “quis” e depois no doc impresso você descobre que amigão ele é)
- Ampulheta do PC.
- Bala de canela
- Bombom de banana
- Alface roxa
- Atendente blasé
- Atendente puxa-saco que logo de cara te elogia.
- Eternos setores de grandes empresas no Call Center. Uma verdadeira brincadeira de batata-quente. O pior é você contar a mesma história para mais de 5 pessoas. Chega uma hora que vira telefone sem fio. A história perde alguma parte no caminho e te colocam em xeque-mate.
- Vendas frenéticas. Experimentar roupa e após 5 segundos, você escuta da cabine: “E aí, ficou bacana¿ Como ficou?”
- Cadarço desamarrado e você atrasado.
- Abraço “frouxo”
- Aperto de mão “molenga”
- Ao ser apresentado a alguém, aquele impasse chato e que precisa ser resolvido muito rápido: primeiro beijo no rosto e estende a mão? primeiro a mão e depois o beijo? ou os dois simultaneamente¿
- Ao cumprimentar alguém você dá um beijo no rosto e a pessoa quer mais um. E sempre rola aquela risadinha "amarela"
- Moeda no fundo da bolsa quando você precisa para completar a grana.
- Controle remoto da TV que toma chá de sumiço quando você está deitado.
A vida tem lá sua graça quando notamos nos detalhes a acidez que ela nos oferece!"
É claro que há algumas coisas que eu não percebo (o que raios é um cadarço, um chinelo de ponta cabeça ou fila fake na balada?). Mas, no geral, está muito bom. Deixei à rapariga um comentário, a acrescentar algumas das coisas que me irritam:
- telefones que deixam de funcionar justamente quando vamos ouvir "amo-te" ou as direcções que precisamos de conhecer;
- blogs que parece que fomos nós a escrever, mas não fomos;
- um convite para ir à praia e não ter ido à depilação;
- estar sentada à frente do computador com um deadline e não sair uma única ideia;
- achar que estamos estáveis e, de repente, uma música ou uma imagem nos pôr a chorar (ou isto são as hormonas?);
- não ver os amigos anos seguidos e quando os encontramos sentir que perdemos a ligação;
- tampa de sanita levantada;
- pasta de dentes sem tampa;
- pacotes vazios no frigorífico ou na despensa;
- ...
Hoje
25/11/08
Afinal
Há alturas em que tudo parece convergir para os pensamentos que nos atormentam e que queremos tornar mais cor-de-rosa. No Domingo uma história triste duma rapariga que conheço da escola e que sem eu o saber passou um mau bocado. Perdeu a mãe muito nova e os filhos dela nunca puderam conhecer a avó. Continua a passar um mau bocado. É nisso que penso quando vejo os meus filhos crescer. Que o meu irmão haveria de ter adorado conhecê-los, brincar com eles, estar com eles. E o raio do Natal é uma das piores alturas. É muito bom para quem está feliz da vida, mas para quem tem uma mágoa permanente não é bom. É duro.
Ao mesmo tempo, vou fazendo, sorrateira, as minhas compras de Natal. Gosto do Natal, mas não gosto. Ambivalência em acção.
By appointment
Tivemos um fim-de-semana fantástico. Ainda bem, porque é por causa de coisas boas como estas que os miúdos pensam que estão a ter uma infância boa e é também de coisas destas que se vão lembrar quando forem grandes e estiverem a trabalhar e virem os dias e as semanas passarem um pouco depressa demais... deprimente, eu sei, mas é esta a triste vida da nossa sociedade.
Li um estudo que diz que questionados sobre a infância os adultos se lembram melhor das brincadeiras ao ar livre e com "brinquedos" inventados. Por isso, este Natal só vou dar livros aos miúdos da minha vida. Foram os melhores brinquedos que tive. Passava horas a ler e horas a sonhar com o que lia. Um livro faz mais pela imaginação do que mil brinquedos, desenvolve a linguagem, previne os erros ortográficos...
O fim-de-semana partido em dois, Sábado vela no Tejo, num barco lindo e luxuoso, que vale a pena ver, um Dufour 385. O vento esteve envergonhado, mas ainda deu para fazer algum exercício e para apreciar a vista. Quem andava ao leme ganhava uma alma nova, Lisboa vista do rio é ainda mais gloriosa. E a luz de Lisboa é sempre magnífica. Figos secos com amêndoa e biscoitos.
Domingo, praia outra vez, até já temos receio de ir, como é que conseguimos tantos dias assim bons em Novembro? Os miúdos em fato-de-banho em bando a brincar pela areia fora. E o céu lindo. Ah, e o pai-herói a fazer body-board em calções e t-shirt, a água gelada e toda a gente com fato completo.
Segunda, já não conta como fim-de-semana, mas vela outra vez, era para ser a última aula, mas ainda vamos ter mais uma deste curso e depois sei lá mais quantas. Ventosga, a série de abdominais mais completa da minha vida, a ver se não caía do barco inclinado a 45º, acho que era isso, e os pés fincados com força. Frio, o mar e o rio gelados. Chegámos à ponte num sopro. De regresso, um enorme navio de cruzeiro, Lisboa anda cheia deles. Que paz.
Sons de miúda
E continua a ser calminha, mas tem sempre uma genica grande lá no fundo da voz.
(Este não é propriamente o clip mas o que interessa é a música)
20/11/08
E... as ambulâncias?
Boa viagem
Como passar pela casa de amigos e desejar que tudo esteja bem com eles. Como comprar um anjinho para a minha vizinha que está mesmo muito doente a ver se se põe boa. Como pensar muito com os olhos fechados com muita força a ver se a mãe de uma amiga que tem dias de vida se põe boa. Como achar perfeito como despedida o título do filme - que nunca vi - Good night and good luck.
O que é que poderá acontecer se vir o avião passar e não desejar boa viagem?
