31/03/09

Como um peão

Cruzo as ruas como um peão num tabuleiro de xadrez. Há dias em que qualquer movimento em falso pode levar-me em direcção a locais perigosos ou, continuando a analogia, a peças perigosas. Por isso, jogo. Ando na diagonal como as torres ou a direito como os peões. Acelero para ultrapassar algum conhecido mais melga ou abrando para evitar ter de ficar a fazer conversa de chacha com pessoas chatas. Finjo pressa, corro para fazer qualquer recado, fazer ou dar um almoço ou jantar.
Se, por outro lado, são pessoas de que gosto e por aqui há também muitas dessas, abrando ou acelero com o objectivo contrário, que é o de ficar à conversa. Pessoas estimulantes ou só semelhantes fazem-me perder os horários, esquecer o jantar, chegar tarde. Pessoas que já não vejo há muitos anos, tenho tanta curiosidade de saber o que fazem, mas tenho geralmente vergonha de perguntar. O que fazem? Quem são? O que é a vossa vida? Vivem sozinhas ou têm vidas animadas, têm filhos, o que fazem? Sou tão cusca interiormente e, ao mesmo tempo, tão contida nas conversas. Como jogadora de xadrez não sou muito boa a fazer bluff.

Eu sei

Eu sei como te sentes quando abres o roupeiro com um ar desanimado pela manhã. Olhas para as cruzetas e para as gavetas, remexes t-shirts, camisas, calças, sapatos, até as meias não são do estilo que precisas. Na Primavera, oscilo entre casacos quentinhos e t-shirts sem alças, oscilo entre as botas de cano alto que comprei finalmente este ano e no último e as sandálias de Verão. Penso mesmo em calçar sapatos que me magoam só porque são intermédios e porque não sou capaz de os deitar fora (quando era pequenina não se deitavam fora coisas que estavam boas...
A Primavera é fantástica mas é difícil acertar no guarda-roupa correcto. Hoje antecipo algum frio, mas sinto-me bem como estou, já sei que pelo meio-dia vai estar certo e ao final da tarde errado outra vez.

29/03/09

Mónaco

Lembras-te de quando fazer a marginal de carro era quase equivalente a jogar à roleta russa? E de quando o Mónaco, que tinha a curva mais perigosa de todas, onde morreu muita gente estupidamente, era um dos restaurantes mais chiques da zona?

26/03/09

Linha fininha

Há uma linha muito fina que separa o sermos bons pais do sermos maus pais. Em relação às mães, essa linha é ainda mais ténue. Termos lenços de papel connosco a todo o tempo pode significar que somos boas mães - i.e. os putos nunca andam ranhosos, sinal óbvio de má paternidade, se se sujarem com comida ou bebida, o que vai acontecer de certeza, podemos limpá-los e até podemos usar os lenços para fazer engenhosos chapéus de sol em caso de o dito abusar da força.

Num momento sou uma boa mãe, porque tenho lenços de papel e os miúdos estão com um ar apresentável e, no momento seguinte, um gelado "é" derretido sobre a t-shirt. Má mãe.

Num momento sou uma boa mãe, porque depois de ajudar o meu filho mais velho a lavar os dentes o deixo gargarejar com o colutório com flúor que o dentista lhe deu por se ter portado muito bem na consulta. E, no momento seguinte, o puto engole aquela porcaria toda e sou outra vez má mãe, a pedir ajuda à médica do Centro de Informação Anti-Venenos (808 250 143 - é para decorar, escrever na carteira e pendurar no frigorífico, ensinar aos avós que ficam com os filhos e aos amigos todos, é o 112 dos venenos e funciona muito bem). O que vale é que aquilo "não é tóxico", mas ainda tenho de lhe espetar com um pacotinho de leite para dissolver a "maldade".

Raio da linha.

25/03/09

Viagem no tempo

Um passeio não é uma viagem, no entanto, se nos esforçarmos, podemos fazer de qualquer trajecto uma viagem fantástica. No caminho para a escola, em pleno Monsanto onde só há mulheres da má vida e os eventuais acompanhantes que as cobiçem, um homem pequenino anda com um ar decidido.
Cruzamo-nos enquanto desço a Serafina, o pequeno homem de verde, que se confunde com a folhagem das árvores luxuriantes da Primavera, e eu no meu carro cinzento, que se confunde com o pó e com os anos que tem. "É patine" dizem os entendidos.
O que fará este homem e porque está a andar por Monsanto, sem destino óbvio uma vez que está longe de tudo? Se calhar é um daqueles pequenos duendes das florestas que surgem ao princípio da noite, só que está enganado com o novo horário solar...
De repente, Nirvana no rádio e tenho 14 anos outra vez, 14 anos em que somos todos os melhores amigos, apesar de hoje já não me lembrar do nome de muitos e não saber donde os conheço. 14 anos em que as conversas sobre nada duram dias e noites, em que as coisas verdadeiramente importantes são os amigos, as saídas, as roupas, os namoricos. Adoro Nirvana.

24/03/09

Sugar sugar

Delicioso - afinal a responsável pela minha adoração por doces (gomas, chocolates, açúcar, cereais com açúcar, açúcar amarelo que com a humidade faz caroços deliciosos, sumos doces, etc...) é a crise. Quem o diz é o New York Times e quem sou eu para duvidar?

22/03/09

3 filhos

Serei eu totó por me rir que nem uma parva quando leio estes textos? E serei ainda mais totó por ter um deadline apertado para entregar um trabalho e estar a rir-me de coisas tontas? É que transbordam de verdade.

O que faz quem tem três filhos (copiado integralmente do blog www.ahtrine.com.br):

O que vestir
1º bebê - Você começa a usar roupas para grávidas assim que o exame dá positivo
2º bebê - Você usa as roupas normais o máximo que puder
3º bebê - As roupas para grávidas SÃO suas roupas normais

Preparação para o nascimento

1º bebê - Você faz exercícios de respiração religiosamente
2º bebê - Você não se preocupa com os exercícios de respiração, afinal lembra que, na última vez, eles não funcionaram
3º bebê - Você pede a anestesia peridural no oitavo mês

O guarda-roupas
1º bebê - Você lava as roupas que ganha para o bebê, arruma de acordo com as cores e dobra delicadamente dentro da gaveta
2º bebê - Você vê se as roupas estão limpas e só descarta aquelas com manchas escuras
3º bebê - Meninos podem usar rosa, né?

Preocupações
1º bebê - Ao menor resmungo do bebê, você corre para pegá-lo no colo
2º bebê - Você pega o bebê no colo quando seus gritos ameaçam acordar o irmão mais velho
3º bebê - Você ensina o mais velho a dar corda no móbile do berço

A chupeta
1º bebê - Se a chupeta cair no chão, você guarda até que possa chegar em casa e fervê-la
2º bebê - Se a chupeta cair no chão, você a lava com o suco do bebê
3º bebê - Se a chupeta cair no chão, você limpa na camiseta e dá novamente ao bebê

Troca de fraldas
1º bebê - Você troca as fraldas a cada hora, mesmo se elas estiverem limpas
2º bebê - Você troca as fraldas a cada duas ou três horas, se necessário
3º bebê - Você tenta trocar a fralda antes que as outras crianças reclamem do mau cheiro

Atividades
1º bebê - Você leva seu filho para as aulas de musicalização para bebês, teatro, contação de história…
2º bebê - Você leva seu filho para as aulas de musicalização para bebês
3º bebê - Você leva seu filho para o supermercado, padaria…

Saídas
1º bebê - A primeira vez que sai sem o seu filho, liga cinco vezes para casa para saber se ele está bem
2º bebê - Quando você está abrindo a porta para sair, lembra de deixar o número de telefone de onde vai estar.
3º bebê - Você manda a babá ligar só se ver sangue

Em casa
1º bebê - Você passa boa parte do dia só olhando para o bebê
2º bebê - Você passa um tempo olhando as crianças só para ter certeza que o mais velho não está apertando, beliscando ou batendo no bebê
3º bebê - Você passa um tempinho se escondendo das crianças

Engolindo moedas
1º bebê - Quando o primeiro filho engole uma moeda, você corre para o hospital e pede um raio-x
2º bebê - Quando o segundo filho engole uma moeda, você fica de olho até ela sair
3º bebê - Quando o terceiro filho engole uma moeda, você desconta da mesada dele

20/03/09

Amor nos anos 70

À porta da farmácia vêem-se coisas engraçadas. Um casal de setentões sai nervosamente do prédio ao lado. Nervosamente por excitação, por antecipação. Abrem a porta, quem passa primeiro, a mala ou eu?, a mulher ou o marido? Vêm em traje de passeio, têm a alegria de miúdos estampada na cara. A óbvia e incontornável malinha com documentos de pendurar a tiracolo, beige claro. Um saco de lixo para ir pôr no contentor, a provar ainda mais que a viagem vai ser longa.

A viagem até pode ser uma estucha, uma excursão de dois dias a Elvas e Badajoz, daquelas em que no fim têm de ouvir uma "breve" palestra de duas horas sobre produtos da empresa x. O ponto alto já foi saírem do prédio onde moram há 30 anos com malas de rodinhas e arrastarem-nas pelo bairro todo até chegarem ao ponto de encontro. Sabem o barulho que fazem as rodinhas das malas? É barulho de glamour.