14/06/09

Não sei quando

Não sei quando foi que comecei a sentir-me assim. Mas sei que já foi há muito tempo. Tenho o lado esquerdo do corpo todo cheio de um formigueiro horrível, que não me deixa dormir e também não me deixa estar tranquilo durante o dia. Não consigo afastar muito a mão do corpo.
Nos transportes públicos não consigo espreitar para o jornal do vizinho do lado, se ele estiver à minha esquerda - não que alguma vez o tenha feito, mas é bom sabermos que temos essa possibilidade se algum dia precisarmos de ler o que o vizinho do lado está a ler, não é?
Quando acordo de manhã, já não escolho as camisas que estão penduradas no roupeiro. Sou capaz de pedir a algum amigo que me ajude a dá-las a outras pessoas. Já só uso as t-shirts que vêm dobradas da lavandaria e que guardo nas gavetas baixas. Ser canhoto não ajuda. Também deixei de fechar os estores. O que vale é que a minha rua não tem muita luz à noite.
Também como não consigo dormir muito bem não faz muito mal.
O formigueiro talvez tenha começado no dia do teu casamento. Era o sinal final de que não podias ser minha. Era o sinal final de tudo o que tinha acalentado desde a primeira vez em que te vi, na praia, há quase 20 anos, dentro das tendas de lona de risquinhas. Conseguimos ser melhores amigos durante quase todo o tempo desde então. Mas há uns anos deixei de ser só teu amigo. Tinha sonhos contigo a noite toda, pensava em ti enquanto aquecia o café da manhã, ficava triste quando me contavas dos teus amores, perguntando-me pelos meus sem eu poder responder. Também acho que percebi quando apareceste apaixonada pela última vez. Eram aí umas quatro quando me ligaste a contar. Acontece que comecei a dormir mal nessa noite.
É que o lado esquerdo é o lado do coração e o meu, meu amor, está muito triste.

11/06/09

Hurra

A minha bebé pequenina que estica os braços e se põe em bicos de pés para eu ver como ela é grande e já não é bebé já sabe andar de "tónete". E fá-lo com um ar altamente equilibrado, com óculos de sol encavalitados na cabeça e com um sorriso de Leste a Oeste. A malinha traz lá dentro um "tefone" para se ligar alguém do cabeleireiro onde ela trabalha com as primas mais velhas e onde de há uns dias para cá fazem cortes, pinturas, brushings, mãos e pés, depilação e massagens. Os preços são de arrasar e à hora do almoço têm uma tabuleta que diz "FEChado".
As massagens são boas, mas a parte de lavar o cabelo também é muito agradável. Ontem fiz tudo e paguei 25 euros em notas de papel desenhadas e um euro em moedas a sério. Acho que a iniciativa privada tem de ser incentivada.
E a minha bebé pequenina também já não usa fraldas, consistentemente de há três dias para cá, tirando uma mijinha por falta de alternativa nas escadas da Area das Amoreiras, pronta e simpaticamente limpa por um funcionário com muita iniciativa.
O meu bebé grande continua pelo Algarve para "desespero" de saudades diurnas do pai e nocturnas minhas (só esta noite dormi como deve ser, depois de duas noites sem dormir). Estamos ao Sol. Isso é fantástico.

09/06/09

Egg shell

Às vezes sinto que vivemos no fim da linha de comboio, que para chegar à animação temos de atravessar a Europa toda. E que bom seria viver em Paris para chegar a Praga ou a Budapeste ou a Londres num instantinho.
Depois penso que temos coisas espectaculares para compensar, como a praia e o sol.
Mas isto é mesmo o fim da linha. Especialmente para quem agora não tem vontade de entrar em aviões.

Não dormir

Não dormir tem coisas destas. Tenho papelinhos cor-de-rosa espalhados pela casa toda a recordar-me de coisas de que me esqueço no matter what. Sinto um papel dobradinho em quatro no bolso. Sei que está lá, mas não faço ideia o que seja, nem me dou ao trabalho de o abrir para descobrir o que é. Estou cansada. Não dormi. Passei a noite às voltas na cama, preocupada talvez, mas não sei com o quê. Pensei no meu filhote a 300 km (coisas como "nem sabes as coisas que o meu pai me deixava fazer quando eu era pequeno", "eu desaparecia de casa dos meus avós e voltava à noite" ou mesmo "quando toda a gente pensava que eu estava a fazer três horas de digestão eu estava dentro de água" ditas pelo pai filho do avô in charge não ajudaram). Pensei nos miúdos com pintinhas e nos avisos dramáticos de alguns sites do potencial de perigo da varicela. Pensei na casa nova que afinal já não vamos comprar porque não gostamos de viver way beyond our means. Pensei nas estantes novas que não vamos ter, no cadeirão para a varanda, na varanda onde queria fazer um jardim biológico, no que havia de fazer na casa de banho da entrada, que queria pintar de verde e dourado...

Não sei porque não dormi, mas não gostei de não dormir.

08/06/09

Empty head

O meu filho bebé de cinco anos foi ontem passar férias a casa dos avós. Longe. O pai está muito triste. Metade de mim acha muito fixe que ele tenha querido ir, metade tem medo dos milhares de disparates em que ele se pode meter sem eu estar por lá. Tinha uma prima que dizia que ter filhos era ter bocadinhos do coração a andar por aí. É mesmo isso.
A mais pequenita está com pintinhas, apesar de ter a vacina da varicela. Esteve em contacto total com dois primos varicelíticos. Nada a fazer.

03/06/09

Envelhecer

Não acredito na vida depois da morte. Acredito que nos mantemos vivos enquanto as pessoas se lembram de nós, enquanto olham enlevadas para as nossas fotografias, enquanto sabem a que cheiramos, mesmo que percam o nosso cheiro e o reconheçam só cinco ou dez anos depois num sítio completamente diferente. [Há dois anos reconheci o cheiro do meu irmão numa almofada. Que saudades...] E essa memória, apesar de tudo, é fixe.
O pior é antes, quando envelhecemos muito e de repente não sabemos onde estamos, quem somos, quem são as pessoas que estão ao nosso lado, em que porta é o armário e qual é a casa de banho. Nessa fase começamos a lembrar-nos de coisas muito antigas, voltando quase ao momento em que demos o primeiro grito, em que nos rimos pela primeira vez, em que começámos a gatinhar...
Se fosse possível escolher quais os momentos de que poderia lembrar-me nesse processo de esquecimento acelerado a caminhar para o total queria escolher estes:
- a felicidade dos meus pais (tenho a ideia de que estavam sempre contentes quando era pequena)
- as Quintas (estávamos mesmo todos contentes)
- os momentos mais felizes todos dos meus irmãos
- fazer bolos, salame de chocolate e rolo de carne
- os carrinhos de rolamentos, os polícias e ladrões, o bate pé, as tardes ou noites inteirinhas à conversa
- as descobertas dos meus filhos e sobrinhos
- as festas

Só boas imagens. E pensar que o envelhecimento quer dizer esquecimento não é ser pessimista. Chegar a velhote com boas memórias é ser optimista.

02/06/09

Não dá para dormir

Não consigo dormir. O meu irmão está a regressar de Singapura de avião, com uma escala em Paris. Acordei e já não consegui voltar a adormecer. Desejo que as 9h da manhã cheguem rapidamente.

01/06/09

Caminho

Há três dias que ando feliz da vida. Vivo num prédio cheio de velhotas cuscas onde há dois meses aterrou uma rapariga, que comprou a casa do terceiro andar direito. A casa dela é mesmo por cima da minha. Ela é linda.
De dia cumprimentamo-nos sorrindo, bom dia, tudo bem, bem obrigada, mas nunca avançámos muito mais. Excepto no dia em que tivemos os dois dificuldade em abrir a porta da rua e falámos mais uns minutos enquanto esperávamos que as chaves voltassem a funcionar. Nos sacos de compras trazia queijo e vinho, compota de morango e uma baguette. E uma lâmpada daquelas que poupam energia.
À noite, enquanto estou à espera que o sono chegue, ouço-a a passarinhar no quarto, ouço-a descalçar os sapatos de salto alto, ouço-a pousar a mala e as chaves, imagino-a a desapertar a roupa do dia, a tirar suavemente o vestido, a vestir a camisa-de-noite, que imagino esvoacante e rosa. Quer dizer, imagino não, eu vi-a a secar na corda da roupa há uma semana.
A rapariga é um pouco mais nova do que eu, dois anos ou qualquer coisa assim, mas não faço ideia o que faça, quero falar com ela mas tenho vergonha do que possa dizer. Se eu imagino tanto do que se passa na vida dela temo poder deixar transparecer o que sei. Não sei se isto faz sentido mas é assim.
Há três dias percebia-a a fazer as malas, ouvi as rodinhas a deslizarem pelo soalho do corredor, a porta a fechar-se e depois o silêncio. Foi passar o fim-de-semana fora, de certeza. Como tinha um jantar com amigos saí logo de seguida também, cruzámo-nos à porta do prédio, olá como estás? bem obrigada, vou para a praia, que sorte, quem me dera, vou para perto, havemos de combinar, ok, até segunda. Correu bem esta conversa. Fui para o jantar, que foi fixe, e quando voltei a casa pus em ordem o que estava atrasado, fiz uma máquina de roupa, arrumei a cozinha e fui estender os lençóis a secar.
Abri a janela para a noite quente que havia de despachar os lençóis molhados num instante. E na corda estava já uma t-shirt que não era minha, era mini, que não era das velhotas do prédio, era fashion e que só podia ser da minha vizinha de cima. Vou esperar pela chegada dela, vou levar-lha, vou pedir-lhe que a vista e vou levar também uma garrafa de vinho verde fresquinho que o tempo apetece e havemos de conversar e ficar amigos. A t-shirt cheira tão bem. Acho que estou a ficar apanhadinho.
Há muito tempo que não dormia assim tão bem.