15/09/09

Fragmentos


Hoje está um dia lindo.
Os miúdos ficaram felizes na escola.
Encontrei imensa gente quando fui à rua.
Bebi um sumo de laranja em óptima companhia.
Tive pesadelos a noite toda.
É difícil ultrapassar sozinha algumas dúvidas profissionais.
Há dois dias vi o "Marley e eu" e chorei no fim.
Daqui a dois dias tenho um casamento.
Estou cheia de calor.
Apetece-me uma bolacha.
Estas flores foram os meus filhos que me deram.
São lindas.
Adorava saber costurar à máquina.
Quando tentava aprender na Singer velhinha da minha mãe tinha suores frios a pensar que ia espetar a agulha nas unhas.
Os meus avós ofereceram a máquina quando a minha mãe tinha 14 anos.

14/09/09

Eu sou tão querido...

"Eu sou tão querido", disse-me ontem o meu significant other depois de nos deitarmos. Mas ele próprio foi surpreendido pela afirmação. O seu ar de gozo é delicioso e, só por isso, mereceu uma festinha na cabeça.
Geralmente não se esforça muito. Podia surpreender-me muito mais. Podia supreender os miúdos muito mais. Mas é muito bonzinho e sabe ser carinhoso.
É, no entanto, estranho que queira ser "querido". Geralmente esforça-se por ser "reles" ou "ruim". Mas, no fundo, é mesmo querido. É querido com sacos de água quente e com massagens para curar torcicolos, é querido quando dá pancadinhas de amor, como as que damos aos cães grandes, como os meus tios nos dão, assim uma espécie de uma palmada ou mesmo um encontrão mas de carinho, como quem não sabe dar.
É querido quando me pergunta baixinho à noite, quando os miúdos dormem: "achas que lhes dou mimo a mais?". O mimo nunca é demais.

11/09/09

Tensão

A tensão invisível provocada pelo regresso à escola dos putos deu-me um belo torcicolo (ou um triciclo ao colo). Ser mãe obriga a constante ginástica mental para ultrapassar coisas tão simples como quem vai no banco da direita, quem carrega no botão do elevador, quem leva as chaves, quem faz o quê primeiro... Assim, em acto contínuo o dia todo.

Ser mãe obriga a um esforço de paciência grande para fazer com que calmamente dispam os pijamas quando acordam, vistam os uniformes, comam, lavem os dentes, a cara e as mãos, para que ao final do dia tirem o uniforme, que tomem banho sem molhar a casa de banho toda, que jantem, que comam a sopa, que lavem os dentes a cara e as mãos, que se deitem e que durmam. Parece fácil, mas até entrarem de novo na rotina demora.

Agora, com eles na escola, dá para relaxar um bocadinho mais, mas o stress em que eles andam e que faz com que não queiram ir para a escola (foram as férias que foram muito boas foram as férias que foram muito boas foram as férias que foram muito boas) está a dar cabo do meu pescoço.

Eu sei que é bom ir para a escola.
Eu sei que é bom ter amigos novos.
Eu sei que é bom aprender.
Eu sei isso tudo.

Aprendam lá isso também vocês, ok? Para ver se me passa o torcicolo.

09/09/09

Desculpe?

Com o passar do tempo geralmente as coisas correm melhor. Há que ter paciência. A educadora da minha filha que hoje ficou a berrar na escola contou-me que à hora do lanche, quando puseram o copo de leite na mesa ela disse com um ar muito surpreendido: "mas não foi isto que eu pedi".

O meu vizinho a quem morreu recentemente a mulher devolveu-me hoje um tupperware em que lhe tinha enviado um jantar quando a mulher estava doente. Anda apagado, metido para dentro, vejo-o passar fugazmente de e para o carro. Disse-me, com um ar triste e para que eu me lembrasse da mulher, que já tinha o tupperware lá em casa há muito tempo. Como quem diz, está a ver, desde que esta caixa entrou lá em casa o meu mundo acabou, a minha mulher era tudo, tratava de mim e de todas as outras coisas. Ontem fomos pedir-lhe gelo para fazer uma caipirinha comunitária e ele disse que não sabia se tinha e foi ao congelador e tinha. Deve ter sido a mulher que fez aquele gelo que ele nem sabia se tinha.

Ainda bem que o primeiro dia de escola da minha filha foi melhor que o segundo, assim posso sempre contar como foi um anjinho no primeiro dia de escola. Hoje foi uma sirene. Daquelas dos bombeiros. Berrou que se ouviu na escola toda e na rua ainda caíram uns pássaros das árvores com o barulho...

Mãe sofre.

Pudera, a ver o irmão mais velho, profissional da coisa e irmão mais velho, a berrar que nem um desalmado "quero ir para casa quero ir para casa" como um mantra, também eu ficava com medo do que me pudesse acontecer.

Mãe sofre.

É a penalização por me estar a sentir tão livre, depois de quase seis anos aos mandos de dois minis. Assim até suporto melhor o choro. Não me ralo. Mas que fico com o coração pequenino fico. Deve ser mais ou menos um mês. Haja paciência.

08/09/09

Hoje é o primeiro dia de escola da minha filha. Da vida toda. Depois de quase três anos de mimo de mãe e de brincadeira ininterrupta e de liberdade. "A nossa filha é uma boa selvagem, vai ser institucionalizada, coitada", diz o pai, lembrando-se da reacção ainda hoje meio adversa do mais velho à escola.

Mas hoje eles vão começar a ir juntos para a escola, presumo que de mão dada e presumo que com promessas de "se alguém te bater eu defendo-te", "vou apresentar-te aos meus amigos todos" e coisas queridas do estilo, que o mais velho é como todos os irmãos mais velhos intrinsecamente querido. Mesmo que às vezes a arrelie ou que lhe dê um sopapo.

E ter um irmão mais velho na escola - e, no caso, primas muito amigas também - faz toda a diferença. Eu, que graças a Deus não sou filha única, adorei o meu primeiro dia de aulas e todos os outros que se lhe seguiram. Ia a correr para a escola atrás dos meus irmãos mais velhos, quis aprender tudo num instante e ler os livros todos que pude. Ainda hoje sou um bocado compulsiva nas leituras.

Ontem tivemos um dia extra de mimo. Fizemos as compras todas de que precisávamos para a escola, canetas de feltro, lápis de cera, borrachas, tesouras, essas coisas. As mochilas foram eles que escolheram, o homem aranha cobiçado há três anos para o mais velho e uns bonecos cor-de-laranja e verdes para a mais pequena que ainda não foi picada pelo marketing, apesar de me avisar para os tais aviões da "pulicidade".

Quando há tempo para mimo, há conversas mais fixes. "Olha o presidente da Junta", digo eu para despertar a consciência cívica dos meus filhos, "é o Zé Sócrates?", pergunta o meu filho com aquele ar "estás a ver mãe como eu percebo de política?"

Ah, e será o primeiro dia de escola, se a miúda não tiver nenhuma descarga, porque anteontem surripiou aí umas 15 ameixas secas - sei que devem ter sido +/- 15 por vários relatos dos avós, meu e dos primos e irmãos. Os meus filhos são doidos por frutos secos.

04/09/09

Raquel

Não era giro que aprendessemos as duas a falar italiano? Hoje, enquanto estava a tomar banho, tive um pensamento estranho: "nunca vou aprender a falar italiano". Já sei porque foi, porque o champoo que está pendurado na torneira começa pelo italiano, com palavras que devem soar tão bem como surgem escritas: risciaquare, sole, solo, dopo, e por aí fora. E aí percebi que, como o Brad Pitt no fantástico Sacanas sem lei que vi ontem à noite, nunca saberei falar italiano. Por isso era giro que fossemos as duas aprender. O que achas?

03/09/09

Passeios de bicicleta

Já sei de que é que vou ter mais saudades quando voltarmos a casa para a semana que vem. É dos nossos passeios de bicicleta pelo meio dos pinheiros. Mesmo que, invariavelmente, seja eu a puxar o riquexó - que os miúdos transformaram em rique-choque, assim tipo carrinho-de-choque só que sem moeda.
E do espaço. Vamos todos ter saudades do espaço.

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