29/06/10

Os meus pais são os mais lindos

Agorinha mesmo, enquanto parava para me meter com o meu pai que estava a atravessar a passadeira e lhe chamava bonitão e os senhores da jardinagem olhavam para confirmar o que eu dizia, tive um flashback espectacular.
Uma das primeiras tarefas que a professora da primária nos deu, acho que logo no segundo dia da primeira classe, foi trazer fotografias da família e falar sobre os nossos pais.
Diligente e ordeiramente, que isto os putos dos anos 80 eram educadinhos e cumpridores, todos trouxeram o que puderam. Um colega (o Xico, que nunca mais vi e de quem era muito amiga) trouxe um recorte duma actriz loiraça retirado duma revista - um psicólogo haveria de ter hoje pano para mangas com essa questão. Na altura, todos percebemos que ele não devia ter fotografias dos pais à mão.
Começámos o exercício e o que se seguiu foi, para mim, um choque. Os outros 20 e tal miúdos diziam que os seus pais eram os mais bonitos do mundo. Diziam não, berravam, insistiam, gritavam e choravam.
Deve ter sido divertido para a professora. A mim ninguém me convenceu. Ainda hoje ninguém me consegue convencer que haja pais mais lindos do que os meus.

28/06/10

Conselhos



... portanto, queres mesmo conselhos, é isso?
A tua frase "que conselhos têm para me dar enquanto futuro próximo pai" ontem ao almoço indica isso. Os meus, consolidados por ser mãe a dobrar e tia a triplicar são:

- Dá o máximo de mimos que puderes à tua mulher antes, durante e depois do bebé nascer (festinhas, comida, água, festinhas, almofadas debaixo das pernas, ombro amigo...);
- Quando o bebé nascer, as hormonas vão enloquecer um pouco e é provável que a tua mulher chore, ria, tenha dúvidas, chore, diga que está muito triste, diga que está muito contente, que tem muita sede, ria outra vez... É tudo normal e, em pouco tempo e com a tua ajuda, as hormonas estabilizam;
- Elogia-a por ser uma mulher perfeita, linda, corajosa, confiante e poderosa;
- Aprende tudo o que quiserem ensinar-te na maternidade;
- Não sejas ansioso, ela vai saber resolver tudo com o bebé;
- Não causes ansiedade, reforça a confiança, sim, o leite da tua mulher alimenta, de facto, a criatura, se não, há alternativas óptimas;
- Ajuda efectivamente, a única coisa que só a mãe pode fazer é dar de mamar, tudo o resto podes ser tu a fazer (levantar e deitar o bebé da cama, vestir, mudar fraldas, dar banho, fazer a cama do bebé, pôr as máquinas a trabalhar, cozinhar). Nos primeiros tempos é fundamental ter a tua ajuda;
- Se deixares a tua mulher descansar com os ritmos do bebé vais recuperá-la muito mais depressa;
- Incentiva-a a dar pequenos passeios na rua para apanhar ar e recuperar um pouco da sanidade;
- Proteje o teu bebé e a tua mulher das visitas nos primeiros tempos, o primeiro mês é para descansar;
- Todas as pessoas vão querer dar-vos conselhos sobre como vestir, dar banho, pegar, educar, etc. a criatura. Liguem o sorriso amarelo e agradeçam mas liguem só às que vos reforçam a confiança nas vossas decisões - senão entram em tilt;
- Tira muitas fotografias ao bebé, da cara, das mãos, dos pés, do corpo todo, dos olhos, tira fotografias da mãe com o bebé e de vocês os três - faz com que a mãe saia glamorosa em todas;
- Leva à tua mulher uma prendinha para a maternidade, uma coisa para ela, que a consiga fazer esquecer que está com o corpo um bocadinho diferente do que queria (uns brincos, uma pulseira, um colar, uns sapatos, qualquer coisa que lhe sirva sempre);
- Se os pais estiverem calminhos o bebé vai absorver as boas vibrações e vai ser muito mais tranquilo;
- Em caso de dúvidas é ligar;
- Em qualquer dos momentos, continuar a dar miminhos à recém-mamã, que é quem mais precisa;
- Último, e mais importante, goza todos os bocadinhos que conseguires, porque passa tudo mega rápido.

Amigos todos, por favor, completem como souberem, a caixa de comentários está aqui para vos ouvir.

25/06/10

O estranho caso...

... das pipocas irresistíveis
Eu sei que sou intolerante a milho. Eu sei que as pipocas são feitas de milho.
Mas programinha de cinema com as babes sem pipocas é, de facto, estranho. Comi umas mãozinhas de pipocas.
e...
Tive dificuldade em adormecer, por causa da comichão na garganta e acordei com a garganta a arder.
Raio das pipocas. Não volto.

24/06/10

Eu vi

"Papá, papá"
Gritos histéricos assim que a porta se abre e o pai satisfeito com os cumprimentos.
"Hoje vi o rei pulga na cambra".

N.T. O rei pulga na cambra é um mix de presidente da república + presidente da câmara. Festa fixe, como eu gosto.

Dia de prémios

Ontem foi dia de prémios - três - não para mim, mas cá para casa. Fiquei muito orgulhosa. Os miúdos também. Que engraçado esta coisa das dinâmicas familiares. A entrega dos prémios estendeu-se pela noite fora. Eu jantei com os miúdos em casa duns amigos, comida chinesa que estava deliciosa! Quando conseguimos interromper as brincadeiras deles e os pus a dormir (quer dizer, eles adormeceram sozinhos, nada disto envolveu marretas na cabeça) tive, sozinha, uns minutos no quarto a ouvi-los respirar tranquilamente, a cheirá-los e a dar-lhes festinhas. Adoro ter assim momentos de paz destes.

A porta do frigorífico

Há dias li algures que a porta do frigorífico reflecte a alma da casa em que vivemos e ainda não tinha tido a ocasião de tratar disso. Vou ali num instantinho esvaziar a minha - cheia de ímans do filme Cars e de outras coisas estranhas - e já volto...
No total, contei 19 ímans de tamanhos variados e descoloridos, desenhos queimados pelo sol (não temos estores na cozinha, ainda...) e já os arrumei.
Agora, como prometiam no artigo, espero que a arrumação da porta do frigorífico se reflicta no resto da casa. Tenho um montinho de revistas ao lado desta cadeira onde trabalho e não sei o que lhes hei-de fazer. O mais provável é irem para o lixo, mas é das coisas que mais me custa deitar fora, porque acho que inevitavelmente, mais cedo ou mais tarde me vão ser úteis (geralmente sinto falta delas no dia a seguir a tê-las deitado fora, por isso esta hesitação, que é do tipo pescadinha de rabo na boca).

23/06/10


Logo hoje, que me apetece debitar 300 mil caracteres, tenho um nó algures e não sai nada.
É que há dias em que isto parece danado e os dedos escolhem o que querem escrever, atropelando-se para chegar primeiro ao caracter almejado. Até pode sair uma história triste ou só um disparate, mas sai qualquer coisa.
Encontrei este flowchart que achei muito giro e que hoje serve em vez das minhas palavras (acho inevitável voltar à pergunta are you happy? depois do change something).
Donde se retira um mantra espectacular: "Temos a capacidade de mudar as coisas de que não gostamos". E outra vez, insiste, insiste.

21/06/10

vezes dois

... e hoje, mais de 15 dias depois de nos ver comprar e colar cromos da bola freneticamente, a mais pequena conquistou os seus próprios cromos. Não sabemos se conseguimos comprar a caderneta, mas cromos das winx já cá cantam, via avó.

Vivam os livros

Muitas vezes, lembro-me do medo de que o gelo entupa os canos contado no livro delicioso Rosa, minha irmã Rosa, ou adormeço só às quatro porque estou a conversar, como na colecção das gémeas (que devorei várias vezes e agora foi reeditada).
Muitas vezes olho o mar, como já li em tantos livros que é o que se deve fazer quando se está à frente dele, muitas vezes adorava esconder-me atrás dum manto da invisibilidade como o Harry Potter. Muitas vezes olho para as minhas mãos e a minha história quando leio Eugénio de Andrade. Muitas vezes surpreendo-me ao ouvir ou ver acontecer na vida coisas que acho que já li nos livros.
Por isso tudo acho que, muitas vezes, os livros são uma espécie de banda sonora das nossas vidas.
Como os dramas infantis que fazemos porque lemos nalgum lado igual. Ou as conversas filosóficas que temos porque, nos livros, descobrimos a filosofia, a existência, o eu. Ou a maneira sensata como às vezes consigo resolver dilemas em que nunca tinha pensado só porque, em alguma altura, li sobre isso, breve ou alongadamente.
Por isso te percebo, meu querido que já sabes ler, quando me dizes "mãe não consigo deixar de ler, porque é que eu não consigo deixar de ler?"
Eu também não. E ainda bem. Os livros e a escrita permitem-nos viver melhor. Venham mais.

20/06/10

Agora eu

E, de repente, sou eu o homem de 92 anos, de bigode branco e quase sem cabelo na cabeça. Ponho as mãos nos bolsos do casaco castanho, olho em volta. O café está cheio de gente que não conheço nem reconheço. Olho para a árvore da esplanada, a abanar com o vento, a mesma desde que para aqui vim morar, em 1963.
Olho para o lado. O meu irmão está velho. Tem mais dois anos do que eu, ele não gosta que o diga. Tem ainda menos cabelo, está gordinho. Tem ar de velhote simpático. A mulher trata-o bem. Os filhos e os netos também.
Foi com eles que almoçámos, antes de os deixar partir para o alvoroço que é as suas vidas. Ainda converso mais um bocadinho com o meu irmão e a minha cunhada, combinamos ir ao cinema, e depois despedimo-nos também. Eu não tenho filhos. Não calhou. Se fosse hoje, se calhar a medicina conseguiria ultrapassar isso.
As riscas do meu casaco estão já sem cor. Os bolsos já não têm forma. Era um casaco bem estiloso quando o comprei, agora se calhar já não se usa. Mas era estiloso, quando passeava cheio de mim mesmo pelos jardins e pelos cafés chiques do Estoril.
Tacteando, encontro um velho papel no bolso do casaco. Uma relíquia que guardo desde há sei lá quantos anos. Desdobro-o pela milionésima vez no caminho de casa. Sento-me, por instantes, no muro da escola. Fixo os olhos no mar, depois no papelinho que tem escrita uma declaração de amor.
Gozo mais uns instantes o mar, o sol, o vento a despentear-me os cabelos, as pessoas a passear. Observo.
Depois, ponho-me de novo a caminho de casa. Rodo a chave na porta, inspiro mais uma vez o ar da rua e entro. A casa está às escuras. A Maria Teresa ainda deve estar a dormir, está, confirma-me a senhora que tem tratado dela desde que piorou, revezando-nos nos cuidados.
O mais provável é não ter dado pela minha ausência. Da mesma maneira que não dará pela minha presença quando acordar. Dou-lhe um leve beijinho na testa e sussurro "amo-te meu amor, o mar perguntou por ti".